
Entrevista realizada por nós, alunos do (antigo) 10º40, -no passado ano lectivo- e pelo nosso prof. de Filosofia.
Inicialmente, iria ser feita a Mário Crespo, jornalista da SIC. Chegamos até a mandar o questionário, mas com o (provável) excesso de trabalho proveniente desta profissão, resolvemos fazê-la com Élvio Passos, jornalista do DN, que agradavelmente nos respondeu às nossas perguntas filósoficas.
Todo o sucesso que esta entrevista teve foi devido ao nosso empenho e também às sábias respostas do Élvio Passos.
Espero que gostem.
"No contexto do programa da disciplina de Filosofia, alunos e professores são convidados a debater temas entre os quais se destaca o 'Determinismo e liberdade humana'. Esta reflexão é necessariamente profícua na formação dos nossos jovens. Num plano teórico parece colher frutos, na medida em que semeia princípios fundadores de uma sociedade cada vez mais consciente da sua autodeterminação histórica, cultural e política. Não obstante, no plano prático, parece que estamos a assistir a um desinteresse total no exercício da nossa cidadania. Que consequências para a sociedade? É esta questão que habitualmente fica em aberto, pois nem sempre as respostas são óbvias. Surgiu então a ideia de começar a entrevistar pessoas que se debruçassem sobre os valores na sociedade contemporânea.
A liberdade, enquanto valor, é apregoada diariamente como um dos pilares da humanidade. Para uns é um dado adquirido, para outros, um feito inalcançável. A sua ausência parece criar feridas entre os mundos Ocidental e Oriental. Não estaremos a 'cavar' um fosso entre estes dois universos históricos e culturais?
Élvio Passos: Penso que os dois mundos, Ocidental e Oriental, concordam quanto à importância da liberdade. A diferença residirá na concepção que têm de liberdade. Claro que do ponto de vista Ocidental, o que se passa em muitas sociedades orientais não tem nada a ver com liberdade, muito menos com democracia. Mas a nossa visão do mundo é a mais concreta? Penso que é somente a menos má. Na nossa sociedade onde está a liberdade das minorias? Não teremos com as minorias atitudes e comportamentos semelhantes aos que criticamos ao mundo Oriental? Não há dúvida de que existe um fosso crescente. Mas penso que é 'apenas' entre as maiorias dos dois lados. Apesar disso é preocupante, pelos radicalismos existentes em ambos os 'mundos'.
A liberdade não será uma utopia? É praticável? Em que contextos e sociedades?
E.P: Acima de tudo, há que falar em liberdades. Algumas delas são utopia, outras algo alcançáveis. Se estivermos a falar de liberdade física, é fácil concluir que é uma realidade para a maioria de nós. Se pensarmos na liberdade intelectual e espiritual, aí já estaremos mais próximos da utopia. A velha frase 'não há machado que corte a raiz ao pensamento' já não é bem verdadeira. Pode não cortar a raiz, mas podemos nutrir o pensamento para que 'cresça' em determinado sentido. Estou a falar de informação controlada pelas grandes agências internacionais, que por sua vez têm poderosíssimos interesses económicos por trás. Veja-se as armas nucleares no Iraque. Muita gente foi 'livre' em decidir o seu apoio à campanha norte-americana. Mas essa decisão na verdade foi condicionada pela informação errada que lhes fizeram chegar. A um nível mais local, o mesmo acontece. Quantas pessoas são livres em votar em determinado partido, mas fazem-no porque lhes mentem, fazendo promessas que não cumprirão, ou porque lhes escondem informações relevantes?
Quem é a liberdade?
E.P: Não consigo dar a resposta pela positiva. Mas talvez consiga uma aproximação se identificar quem penso que não é livre. O intelectualmente preguiçoso; aquele que não procura nova informação; quem apenas olha para um lado dos factos e/ideias; quem fala mais do que ouve; quem se fica pela primeira impressão ou pela primeira coisa que lhe é transmitida; quem se fica pelo comodismo materialista e não participa em movimentos cívicos; etc., etc., etc. Esses não são verdadeiramente livres. Esses não são a liberdade.
Como jornalista e como cosmopolita português e europeu, como encara a liberdade?
E.P: Como jornalista a liberdade é uma preocupação constante. Não aceito imposições óbvias e objectivas. O problema é as tentativas de manipulação e condicionamento que, todos os dias, recebemos dos diferentes quadrantes da sociedade. É um movimento que considero normal na sociedade portuguesa e mais comum na europeia. Existe mesmo a profissão de 'lobista'. Aquele que faz lóbi. Aquele que tenta influenciar em determinado sentido. Acima de tudo o que é necessário é ter coragem, valores claramente definidos e agir em conformidade. Mas não nos esqueçamos da falta de liberdade que a maior parte de nós sofre. Somos escravos do dinheiro. Quantos de nós seríamos mais livres, em toda a acepção da palavra, se não tivéssemos de nos preocupar com o dinheiro?
O jornalismo é uma procura constante de informação. Para tal seria necessário uma atitude anti-dogmática, pois as notícias devem 'conduzir' a opinião pública para o conhecimento dos factos, sem conotações ideológicas. Esta é uma aspiração de todo o jornalismo?
E.P: Não é uma das aspirações de todo o jornalismo. Basta pensarmos nos meios de comunicação pertencentes a partidos políticos e igrejas para percebermos e entendermos que haja conotações ideológicas. Mas desses, dos que assumem as ideologias que defendem, todos estamos defendidos. O problema são os órgãos de comunicação e os jornalistas que, sem o assumirem, defendem ideologias. Umas vezes conscientemente, outras nem tanto. Depois, há que não esquecer que, na maior parte dos casos, por detrás de um órgão de comunicação social está uma empresa. Uma empresa que tem muitas despesas, nomeadamente em salários. Isso faz com que dependa do poder económico e político, por causa da publicidade. Essa dependência pode acabar por condicionar os conteúdos da comunicação social e, consequentemente, a formação da opinião pública.
Tendo em consideração que a dignidade humana é um Valor Universal, como encarou as notícias da morte da Saddam, em termos jornalísticos (na TV)?
E.P: Deixem-me defender a minha dama. Penso que apontar culpas à comunicação social pela forma como fez a cobertura do julgamento, condenação e morte de Saddam, é um duplo erro. Primeiro porque, se é verdade que terá havido exageros também o é que houve muito boa informação sobre o assunto. Terão todos os órgãos de comunicação errado ao mostrar as imagens? Todos mesmo? Talvez as imagens tivessem mesmo de 'passar'. O segundo erro em centrar a questão na comunicação social é porque se corre o risco de nos desviarmos da questão central: o valor da vida. Sou contra a pena de morte, em qualquer circunstância. Mas ao mesmo tempo interrogo-me se eu ou alguém que me seja muito querido, for alvo de um crime bárbaro, se não mudarei de opinião. É uma garantia que não posso dar.
Segundo Hegel [filósofo] 'ser livre não é nada, tornar-se livre é tudo'. O que pensa desta afirmação e de que forma isso pode contribuir para o trabalho de um jornalista?
E.P: De alguma forma já respondi a isso. Ouso dizer que concordo na afirmação, a medida em que não se é livre. O mais próximo que conseguimos estar da liberdade é procurá-la constantemente e esforçarmo-nos por ultrapassar os obstáculos que se nos deparam no dia-a-dia. No jornalismo, por exemplo, se alguém nos contacta a dar alguma informação, é porque a pessoa tem algum interesse em que essa informação seja do domínio público. Cabe ao jornalista tentar perceber se independentemente desse interesse (que pode ser altruísta) deve ou não publicar a informação. Nem sempre conseguimos; muitas vezes as decisões são tomadas em espaços curtíssimos de tempo. E erramos. Mas o essencial é a atitude.
O que pode esperar um jovem de um adulto na defesa de valores, já que se considerou os jovens de hoje, uma geração 'rasca'?
E.P: Ocorrem-me as palavras de um antigo presidente dos Estados Unidos da América. Kennedy uma vez disse aos americanos, mais ou menos isto: 'não perguntem o que o país pode fazer por vós, mas o que cada um de vós pode fazer pelo país'. Eu adaptaria as palavras do presidente e perguntaria: o que é que os jovens podem fazer pela defesa de valores, dando o exemplo aos adultos. Um deles seria aquele que pela primeira vez chamou 'rasca' a toda uma geração, que, para desgosto meu, até é madeirense. Penso que rasca foi essa afirmação. Rasca foi o pensamento que esteve na sua origem. Rasca talvez sejam algumas obras dessa pessoa. Os jovens de então, anos 90, como os de agora, são tão bons ou melhores que os da geração desse nosso conterrâneo que escolheu Lisboa para viver.
Costumo dar um exemplo que demonstra o quanto valem os jovens de hoje, face às gerações que os antecederam. Tenho reparado que, na condução automóvel, os jovens tendem a ter comportamentos mais correctos que os mais velhos. Vejam, por exemplo, quem mais pára nas passadeiras. Vejam quem mais dá prioridade a quem à partida não a tem. Vejam quem mais pára para ajudar outros automobilistas. É só uma demonstração de que os jovens podem dar o exemplo aos mais velhos, quando se fala na defesa de valores."
Entrevista publicada na Revista ''O Lyceu'' (revista da escola)
(desconheço o autor da foto)