Dos tempos de infância não guardo imagens muito precisas e detalhadas, mas sim pinturas a óleo um pouco para o abstracto, sendo que algumas parecem banda desenhada com todos os balõezinhos com as respectivas falas, que ainda sei de cor e salteado. Não é fácil me lembrar de algumas caras, principalmente daquelas que não me eram tão familiares provavelmente devido à futilidade (?) que lhes atribuía. Contudo não esqueço vozes. Muito menos esqueço locais. Lembro-me perfeitamente da sala de jantar da casa da avó. Impossível não me lembrar. Pequenina e acolhedora, talvez um pouco antiquada e com quadros nas paredes com fotografias que retratavam tempos idos, felizes ou não, fantochada ou não, mas que qualquer das formas tinham que transmitir a ideia que mais reinava naquela casa (ou era essa a ideia que os avós nos queriam dar): felicidade e tranquilidade. - Hoje sei perfeitamente como a minha ingenuidade me tramou - . A sala era, como já referi, pequena. Talvez podia ser comparada a uma casinha de bonecas, com os seus biblôs e as cortinas branquinhas que esvoaçavam sempre que uma brisa suave passava por entre a vidraça. Um mimo. Passava lá horas, sentada na cadeira do avô, castanha e almofadada, a folhear os meus livros de criança ou a rabiscar alguma coisa numa folha branca de papel. Outras vezes ficava de pernas cruzadas na cadeira de baloiço da avó, a cantar todas as músicas que aprendia na escola e que fazia questão de ensinar a quem quisesse e mesmo a quem não quisesse ouvir. Mas do que mais me lembro é da mesa grande que ficava no centro da sala. Contavam-se catorze cadeiras à sua volta. Aos domingos, todas ocupadas; nos dias de semana, ou nos dias em que decidia acampar lá em casa, tinha uma cadeira só para mim que ficava ao lado da do avô. Orgulhava-me por isso. Não sei porquê e também não sei explicar porque é que gostava de me sentar a seu lado. Imaginem que estão ao pé do vosso ídolo... é mais ou menos a mesma coisa. Muitas vezes, quando tinha a mesa por minha conta, ele olhava para mim, passava a sua mão grande, bonita e pesada pelos meus cabelos e sussurava: «És a alegria desta casa.» Não compreendia as suas palavras e limitava-me a sorrir. Dizem que a ingenuidade de uma criança é a coisa mais doce que há. No entanto, agora apercebo-me da frieza de muitas das minhas atitudes. Noutras vezes, quando afundava a colher na enorme taça de cereais logo pela manhã, e a avó quase que me obrigava a engolir tudo inteiro porque estava atrasada para a escola, o avô observava-me por entre os seus óculos pequenos que lhe assentavam na pontinha do nariz pontiagudo, esboçava um sorriso ténue e dizia: «Vamos lá a despachar boneca».
Ainda no outro dia vi uma imagem que dava um quadro daqueles mesmo amorosos. Deve ter sido das coisas mais queridas que alguma vez vi; um senhor levava pela sua mão a «sua menina», e a sua cumplicidade era bem evidente. Hoje pergunto-me, haverá amor mais sincero que o dos avós pelos netos, e vice-versa? Haverá alguma coisa mais querida do que este suposto choque de gerações, mas que acaba por ser uma complementaridade para ambas as partes? Não acredito. Ainda hoje recordo a voz do avô a me dar as boas noites enquanto me dava um beijo carinhoso na bochecha. Ainda hoje recordo as noites em que adormecia no sofá e sentia a sua mão a me passar no cabelo. Ainda hoje recordo quando lia o jornal à mesma hora que eu fazia os trabalhos de casa e uma vez acabados, agarrava-me pela mão e íamos dar um passeio. Ainda hoje recordo os melhores momentos que passei com ele, os melhores momentos que passei com alguém (e disso não duvido). Sei de cor e salteado algumas das suas histórias. Ainda hoje sinto-o. Quando digo que amei (e amo!) o meu avô, por mais inexplicável que isso possa ser - ou mesmo incompreensível, sinto-o. Acho que não poderei amar alguém da mesma forma.
Tenho saudades.
Ainda hoje recordo a voz do avô a me dar as boas noites enquanto me dava um beijo carinhoso na bochecha.



