sexta-feira, 27 de julho de 2007

5

Mal me quer




Mal me quer a solidão
Bem me quer a felicidade
Mal me quer a ilusão
Bem me quer a amizade.

Mal me quer a preia-mar
Bem me quer a lua cheia
Mal me quer a dor de amar
Bem me quer a sábia ideia .

Mal me quer as vidas perdidas
Bem me quer o sonho concretizado.
Mal me quer as memórias esquecidas
Bem me quer o povo conquistado.

Mal me quer a solidão
“entre o fogo e a madrugada”
Bem me quer ou mal me quer
“tudo, pouco ou nada.”

(Carolina, dedico-te este poema pelas razões que tu bem conheces. Um beijo)

domingo, 22 de julho de 2007

6

Quem me dera que tivesse sido eu. Peço desculpa !


Estava eu a passear à berma da estrada para tentar encontrar inspiração para os meus textos como colunista no jornal da cidade. Sentei-me num banco de jardim decidida a que as palavras voassem até mim como um avião voa para a terra do destino. Fixei o meu olhar na esplanada Ambrósia, numa mesa redonda em que estava um jovem a beber uma cola. Encontrava-se aparentemente deprimido, ferido, olhando para o vazio como se o que se passasse à volta dele, as pessoas que andavam num passo apressado, pertencessem a outro mundo, a outra realidade. Levantei-me decidida a me sentar na mesa do jovem, a pedir a mesma bebida que o jovem e a olhar nos olhos do jovem e fazer soltar as palavras enforcadas na sua garganta. Quando me sentei, apenas me lançou um olhar rápido, frio e triste. Não pronunciou nenhuma palavra nem nenhum som. Não esperei mais tempo. Comecei a desbobinar perguntando o que lhe fazia ficar em tão baixa auto-estima.
- Há dois dias atrás a vida corria-me mal. Na escola tudo mal, comigo mesmo tudo péssimo, com os amigos também. E para não bastar, decidi baldar-me ao último tempo da tarde. Fui para casa, tomei um banho e vesti-me como nunca me vesti. Peguei no carro do cota e fui ter com uns conhecidos a um bar que não conhecia bem, mas que tinha um ambiente agradável, no meu ponto de vista. Ficámos lá a abanar o capacete e a beber uns copos até bem tarde. Quando chegou a hora de bazarmos, eu é que fui encomendado para levá-los a casa, visto que não tinham carro. Em toda aquela euforia dentro do carro do cota, com música aos altos berros, danças dentro do carro, conversas paralelas e pouco mais, nem me tinha dado conta na velocidade em que ia, nem para onde ia. Ia na faixa contrária, divertidíssimo com tudo o que se passava na caixa de quatro rodas, chocando contra outro carro.
Acordei horas depois no hospital, com canos no nariz e com a cara cheia de sangue pisado, nódoas negras e pensos rápidos. Perguntei à enfermeira pelos meus amigos. Ela, sem desviar os olhos do relatório médico, disse-me muito secamente : '' as duas raparigas tiveram morte imediata, e o outro rapaz está em coma. Você está prestes a ter alta, não se preocupe '' . '' Não se preocupe?!'' Como é que não podia preocupar-me, se eu, sim eu, MATEI duas pessoas e pus uma em estado crítico? Experimentei perguntar pelo senhor outro carro. A mulher respondeu-me da mesma maneira : '' O senhor já saíu do hospital, mas o carro não prestou para mais nada ''. As lágrimas vieram-me aos olhos... não sei se de pena, de raiva ou de tristeza. Queria sair daquela cama de hospital o mais rápido possível.
Ontem, quando saí, passei na rua onde se tinha dado o acidente e vi que muita gente parava e deixava ramos de flores roxas e brancas e também velas. Percebi de imediato que aquela notícia não tinha passado ao lado da sociedade e muito menos era desconhecida. Então, peguei em todas as flores que lá encontrei e escrevi no chão '' Quem me dera que tivesse sido eu. Peço desculpa ! '' e caminhei sem sequer ter coragem de olhar para trás, com as lágrimas a me deslizarem pela cara. (respondeu ele com os olhos cheios de lágrimas e a me pedir, indirectamente, ajuda)


Naquele momento, achei que já tinha inspiração suficiente para escrever a minha crónica.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

2

Bem-vindos






Tal como o Daniel Oliveira começou com o jornal Penalty, criado pelo próprio, eu começo não com o jornal mas com algo semelhante: o blog Apontamentos.

O meu objectivo é que seja um blog diferente, um blog nunca antes visto! Pretendo que seja como um verdadeiro pedaço de papel lido por todos. Para além de contos, publicarei poemas, entrevistas, revelarei um pouco de mim e para tornar o blog ainda mais aprazível, publicarei músicas - com as respectivas letras - que me marcam! Claro que isto é só algumas coisas pois cada publicação será uma surpresa. Organizarei as publicações em categorias para facilitar a vizualização das mesmas.

Com sondagens, contarei com a participação de todos os que por aqui passam e os comentários darão aos textos outro sentido. Por isso conto com vocês. Têm também, um e-mail há vossa disposição, onde puderão enviar o que quiserem. E para os mais tímidos é uma óptima maneira de participarem neste meu projecto.

Não sou profissional mas tentarei realizar um bom trabalho que seja do agrado de todos.

Espero que gostem.

" Espero escrever neste poço de folhas com as mãos entre as árvores,

tudo vem devagar em labirintos negros

ou em sequências de uma confusa caligrafia branca.

Amo este esconderijo suave e as paisagens fatigadas.

Eis que o texto principia com lábios, dentes e língua

e o rumor das vespas no seu sono esguio.

O que oscila na obscuridade é o meu árido alimento.

As minhas frases têm o aroma da água e o calor de uma chama silenciosa.

Dentro da face incerta aprendo as pétalas solares

e entre as sombras claras sou o chão amarelo, sou o vinho e a pedra,

sou a língua da árvore. "


António Ramos Rosa, in Num poço de folhas