É melhor que te perguntes se és curioso, impertinente, se te interessa o que te rodeia, se queres averiguar o porquê das coisas. Então não sei se terás vocação mas pelo menos tens, em princípio, algumas das aptidões necessárias.
(...) O que é ser jornalista? Um adágio britânico resume esse destino no de sair à rua, ver o que se passa e contá-lo depois aos outros. Ou seja que o jornalista é qualquer cidadão que queira fazer isso e não são necessários títulos nem honras para o levar a efeito.
(...) Uma das principais condições é a curiosidade. Os filósofos chamam a isto capacidade de assombro, e implica uma certa ingenuidade de espírito, um amor ao novo, um estar disposto a deixar-se surpreender cada manhã. Nessa capacidade de assombro reside o fundamento do conhecer e por isso a rotina é o pior inimigo da sabedoria. O bom dos jornalistas, dos jornalistas assim sem mais nada, é que se interessam por tudo, se entusiasmam por tudo e para tudo. (...) Ou seja que um jornalista necessita exercitar o desejo prévio de conhecer, e nisso aproxima-se dos filósofos, mas deve sentir igualmente a necessidade de contar as coisas, e nisso parece-se aos bobos. A sua paixão não se satisfaz só com a sabedoria própria, mas também na curiosidade alheia, que tem de interpretar e que nem sempre coincide com os seus interesses, os seus ideais ou os seus próprios critérios.
Mauro Muñiz (...) disse-me (...) «Convence-te, só há dois géneros de jornalistas. Os que escrevem bem e os outros.»
(...) Agora que me é permitido duvidar das minhas próprias qualidades, e das dos outros, já sei que há muitos géneros de jornalistas (...) Há jornalistas que escrevem, os que corrigem o que eles escreveram, jornalistas que falam pela rádio, ou os que estão detrás de uma câmara fotográfica ou são operadores de televisão. Há jornalistas que passam horas mortas detrás de uma mesa de trabalho, a escolher telegramas de agência, e os que não param de visitar esquadras. Alguns roubam documentos (...) Há jornalistas que se lançam de pára-quedas sobre lugares em conflito, outros que organizam peditórios humanitários e não faltam os dedicados à sociologias, estatística ou pesquisa. Não são poucos os que se empoleiram na tribuna da política, ou no púlpito da sua própria religião, jornalistas deputados, jornalistas ministros, jornalistas evangelizadores, jornalistas detectives, jornalistas de escritório, jornalistas espertos e parvos, ignorantes e cultos, honestos e corruptos, jornalistas que preferem criar a notícia em vez de encontrá-la, ou os que se empenham em protagonizá-la eles, jornalistas que querem ser académicos e outros que têm prazer em ser levianos, romancistas, actores, ricos, poderosos, boémios... Que têm em comum todos eles? Repito (...), a curiosidade, a maldita curiosidade de saber o que há detrás das portas, debaixo das carpetes, dentro das gavetas ou no interior das camas. Ou seja que não me perguntes outra vez se tens vocação, pergunta-te a ti mesmo se te interessa averiguar, quanto medo tens de saber, de descobrir, de conhecer, de investigar, de falar e, às vezes, de calar. (...) é para ti isso mais importante que nada? (...) Desfrutas a olhar? Então és um jornalista."
Cartas a um jovem jornalista, Juan Luis Cebrián

4 comentários:
Fim ao cabo todos nós "somos" jornalistas :p. *
adoro completamete esta carta :')
É a carta que mais discordo...
Há, de facto, uma coisa que se chama vocação e que no fundo se resume a tudo isso que ele acaba por detalhar!
Quem não nasce para ser jornalista, nunca o será... por mais "curiosos" que sejam!
Aquele bj
É a carta que mais discordo...
Há, de facto, uma coisa que se chama vocação e que no fundo se resume a tudo isso que ele acaba por detalhar!
Quem não nasce para ser jornalista, nunca o será... por mais "curiosos" que sejam!
Aquele bj
Bela Carta! Consigo identificar-me um pouco, mas também quero ser jornalista ;)
**Beijos**
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