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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

4

Parte I

Ele.
Pode dizer-se que não prima muito pela beleza e que os seus olhos são tão pequenos que, contrariamente ao que é suposto, sobressaem na sua face ligeiramente oval. Não consigo definir muito bem a sua cor... há quem diga que são castanhos esverdeados assumindo realmente o verde quando está perto do mar. - que coisa estranha!- Há ainda quem afirme que a cor de chocolate não engana ninguém, excepto quando, por vezes, «puxa o preto». Ao certo, ninguém conhece. Não é que a cor dos seus olhos pequenos realmente interesse, mas para pessoas que gostam de um olhar bonito, brilhante e até profundo, como eu, este ponto é determinante em muita coisa. Mas passemos à boca. Dizem que são os lábios que vão desenhar o sorriso; que tornam a expressão facial de uma pessoa muito mais bonita. Só me lembro do pobre DaVinci aquando da procura do sorriso perfeito para a sua Lisa. (e aqui entre nós, não podia ter arranjado um mais estranho!) Contudo, lamento em discordar, é verdade que os lábios dão o ar-de-sua-graça mas não é aí que está a ''essência''. - Atenção, não discutirei isso agora. - Os lábios deste homem não são carnudos, nem finíssimos. Digamos que tem uns lábios normais, ou pelo menos assim considerados por muito boa gente. Mas numa coisa essa normalidade é logo esquecida: quando sorri, o formato da sua boca é estonteamente apaixonante. Não sei bem porquê, mas há qualquer coisa naquele desenho completado pelo tamanho dos seus dentes brancos que fascinam qualquer alminha. Céus! Deve ser por isso que muitas mulherzinhas dizem que ele é um autêntico «pão-de-casa» (que expressão tão impertinente!). Nem falam no nariz pontiagudo!, sim eu própria discrimino esse pormenor, nem nas sardas que se acumulam nas bochechas e por cima do nariz especialmente quando é Verão. Do enigma da cor dos olhos, passam logo para o sorriso. Pois, percebo-as. Acho que é neste ponto que encontramos a beleza deste homem. Nesta mistura estranha de invulgaridade com misticismo. Ah não, não lhe falemos do cabelo porque esse, nunca ninguém o viu. Está sempre escondido por baixo de um chapéu de palha que combina rigorosamente com a camisa axadrezada que usa de cada vez que sai de casa.
É um homem reservado, bem podem apostar. O meu pai dizia-me que as marcas da Grande Guerra são bem visíveis no carácter deste bom homem. As próprias rugas denunciam-no. Quando voltou da guerra, voltou mais curvado fisicamente e psicologicamente. Ou seja, não lhe falem de metafísicas nem de grandes cuscuvilhices, muito menos de matérias que exijam alguma sabedoria para além daquela que a vida nos ensina porque se o fazem, não conseguirão manter um fio de conversa minimamente decente. Resumindo, falem-lhe apenas quando for essencial e ponham de parte todos os floreados. Se o virem todos os dias na taberna a um canto, bebericando o seu copinho de vinho, não o tomem por bêbedo. É apenas o que ainda o mantém de pé. Segundo resmunga «dêem-me este copinho todos os dias e ficarei vivo por muito mais tempo». Pois. Que seja feita a sua vontade, então.
Da sua vida todos desconhecem. Para além de o encontrarmos na missa aos domingos, às terças e quintas no largo da vila e todos os dias, à noite, na taberna, não sabemos de mais nada. Mesmo que quisséssemos. O homem fecha-se sempre em copas, e penso que será sempre assim. Um dia, quem sabe, abrirá todas as portas que estão por abrir. Um dia.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

10

Carta à Mãe

(não conheço o autor da fotografia)

Encontrei este texto, feito por mim claro, numa caixa onde guardo todos os textos que escrevo e ficam espalhados por aí, numa folha de papel qualquer


Funchal, 11 de Agosto de 2007

Querida Mãe,

Onde estás? Partiste sem bilhete de regresso e com o destino resumido a uma incógnita. Não sei onde te procurar. Onde te encontrar. Por isso acho esta carta inútil. Vou dá-la ao carteiro e a única coisa que ele me vai perguntar é:
O endereço, menina Mi, esqueceu-se do endereço. E a única coisa que eu vou responder será: Deite ao vento. Ficará com uma expressão um tanto ou quanto espantada e interrogativa. Paciência!
Preciso de alimentar este vício que nos põe lado a lado, de mãos dadas. Embora este vício seja apenas meu. Parece que não queres ficar “viciada”…
Não compreendo o teu silêncio, a tua ausência.
Naquele dia escuro e frio de Inverno aqueceste o meu leite que costumo beber de manhã, deste-me um beijo repenicado na testa e disseste
Até logo. Foste para o trabalho como de costume. Mas e depois? Esperei-te à janela e tu nunca mais voltaste. Tens um “até logo” muito esquisito, Mãe. Tão demorado…
Olhei para a lua que me iluminou a cara e fez com que as minhas lágrimas se assemelhassem a cristais. Mas não me importei. Senti-me triste por não te poder abraçar e beijar a tua face rosada. Por não te poder apertar a mão...

O carteiro está quase a passar e quero entregar esta carta o mais rapidamente possível.
Responde-me, por favor!

Um beijo da tua,
Mi


domingo, 8 de junho de 2008

2

E depois...


A vida continuou após o dia da valsa, do brilho, da luz, do glamour. Tinha sido apenas uma noite para juntar ao nosso álbum de recordações. Não podia haver continuidade, nem eu nem tu queríamos que houvesse. Aliás, recordo essa valsa com um brilho no olhar, com o coração cheio e com a certeza de que te tinha sentindo, mais uma vez, mas de forma diferente. Da forma como tu me quiseste transmitir no café, e eu não tinha percebido. Querias estar bem contigo próprio, querias estar feliz. E estavas. Nunca te tinha sentindo tão solto, tão tu. Talvez tenha sido por isso que quiseste dançar comigo, que quiseste me tocar, me olhar, me sorrir. Para eu ser testemunha da tua felicidade, da tua nova alma.

Quando dancei contigo e quando deixei-me levar pela tua sensualidade e ritmo, o meu coração mergulhava, de novo, no nosso passado mas a minha cabeça tinha a perfeita noção de que eu não podia tomar as coisas como certas, nem podia transformar aqueles segundos, nos anos que partilhámos. O que se tinha passado, passou. Não era para dar outro final, porque o ponto final aconteceu da forma mais inesperada, à chuva e ao sabor de um beijo suave. Aquilo era o início de uma nova vida, para mim e para ti, separadamente, sem o que éramos à mistura. Percebi isso e tu sabes que eu, finalmente, tinha entendido a mensagem.

Na dança não pronunciámos nada, apenas deixámos o olhar falar por si. Consegui decifrar a tua alma, algo que nunca tinha conseguido fazer, e tu conseguiste interpretar o meu olhar de chocolate e realmente sentir o que eu sentia. Foi o momento auge da noite, da nossa noite. Foi quando os nossos corpos se misturaram com a melodia, o nosso olhar se beijou e as nossas almas se uniram por uns breves instantes. Tudo se assemelhava a uma nova página de um livro, onde o autor escreve, levemente, a reviravolta da história triste que ambas as personagens viveram. Onde dá continuidade à breve vida de duas pessoas que outrora não eram nada sem existir um elo de ligação chamado amor, que no presente esbarravam contra todos os vidros e barreiras para superar o que tinha fracassado e que no futuro se voltavam a unir, mas de uma maneira diferente.

Depois do que foi o retorno aos momentos mais felizes da minha vida, ao contrário do que qualquer um faria, eu não tentei pegar numa borracha e apanhar o que tinha acontecido naquele salão todo iluminado. Pelo contrário, cheguei a casa e depositei as minhas memórias no nosso baú e todos os dias a partir desse, inspiro o ritmo, a luz, a sedução. Não me chamem louca, viciada, exagerada. Chamem-me apaixonada porque é o que melhor me caracteriza. Mas não. Não estou apaixonada por aquele homem que já fez a minha cabeça andar às voltas tantas vezes, por aquele homem que sabe como sussurrar o que queremos ouvir, amar-nos como sempre desejámos e fazer com que sejamos felizes como queremos. Estou, sim, apaixonada pela essência daquela noite, daquele toque na minha mão e nas minhas costas. Apaixonada pela troca de olhares e pelo beijo das palavras não ditas.

Quem ditou o nosso destino, fê-lo bem. E tornou a nossa história, a história da minha vida, da vida dele, da nossa vida. Onde tatuámos o bom, o mau, o ódio, a paixão, a emoção, o sentimento, a essência. Quem escreveu a nossa história deixou o final em aberto à espera que nós, eu e ele, peguemos de novo na nossa caneta e escrevamos o que o futuro nos reserva, ao sabor da alma e ao sabor do coração.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

3

A valsa


Tudo brilhava. Os vestidos. Os cabelos. Os sorrisos. As luzes. Os olhares. Ao fundo da sala, a música tocava baixinho e ia, gradualmente, aumentando de volume. Estava frio. Tinha acabado de chover, por isso, as pessoas encontravam-se todas naquela sala enorme onde era difícil atravessá-la sem esbarrar naquelas entidades que tentavam se afirmar desse por onde desse.

Quando cheguei fiquei à porta. Nunca tinha visto tanta beleza, tanto glamour, tanta sensualidade junta. Definitivamente, estava num mundo que não era o meu. Mas sentia-me bem, na verdade.

Queria apanhar um pouco de ar fresco e notei que ao pé da banda, um pouco mais no lado direito, havia uma pequena porta de vidro aberta que dava para uma varanda com vista para os grandes jardins e para o lago que reflectia a lua cheia. Pensei que seria uma excelente ideia ficar por lá uns momentos, enquanto a festa se desenrolava atrás de mim.

Sabia que tinha que passar no meio de toda aquela gente, tinha que ter cuidado com os vestidos das outras senhoras, com as bandejas de champagne que passavam por cima das nossas cabeças... Mais ainda, tinha que ter cuidado com os meus sapatos e com o meu vestido cor púrpura, recheado de uma espécie de fitas brilhantes, para não tropeçar e fazer má figura.

Já mal se ouvia a música. O barulho de fundo eram gargalhadas, conversas intercaladas com os tilintares das taças de champagne e ainda o engraçado barulhinho que os sapatinhos de salto alto faziam ao bater no chão. Respirei fundo e sorri.

Quando comecei a caminhar na direcção da varanda, uma leve brisa roçou os meus cabelos e beijou-me a cara. Sentia-me feliz. Caminhava como se não houvesse nada para além de mim e dos meus pensamentos e deixava-me seguir pela música que, entretanto, soava baixinho.

A valsa tinha começado. As conversas e as bebidas tinham ficado agendadas para depois da dança que esperava ladies and gentlemans. O maestro coordenava a banda com os seus gestos incompreensíveis e a música aumentava de ritmo e de som. As pessoas iam de encontro aos seus respectivos pares para o passinho de dança a meio do salão. Se não queria esbarrar naquele look très chic, tinha que me despachar. Tocavam Paganini e eu murmurava, talvez uma letra improvisada, para aquela melodia. Ria de mim mesma. Nunca me tinha sentido tão feliz nos últimos tempos. Queria aproveitar aquele momento.

Uns dançavam e outros conversavam nas mesas que se espalhavam pelo salão. Estava quase a alcançar a varanda e toda aquela confusão de "Com licença!" "Ups, peço desculpa!" estava a chegar ao fim. Até que sinto um toque leve na minha mão e oiço uma voz bastante familiar e que me deu saudades de outros tempos. Parei. Voltei-me e o meu olhar cruzou-se com um olhar meigo e há muito perdido no tempo. Um olhar que já não via desde aquela tarde de Janeiro, na rua do café do costume. Naquela tarde em que senti que tinha sido o fim. Suspirei. Não poderia acreditar no que os meus olhos viam e para quem estava a sorrir.

Deu-me um beijo delicado na mão que tinha presa à sua e continuava a olhar para mim.

- A menina dança?

Soltei uma gargalhada e colei a minha mão à sua. Coloquei a outra no seu ombro. Os olhares voltaram a se cruzar. Senti a mão firme nas minhas costas e as minhas pernas a darem seguimento àquela dança que nem eu nem ele sabíamos de onde vinha. Mas não queria descobrir o impossível. Mantive a mão apertada naquela palma que não via há muito tempo e senti, de novo, aquela tez macia. Não dissemos mais nada. O nosso olhar falava por si.

E dancei.

Dancei Paganini como nunca tinha dançado.

domingo, 6 de abril de 2008

7

E eu sorri

(foto de Germina)


A brisa corre lá fora e agita as folhas que desmaiam no chão. O sol teima em entrar pela janela do meu quarto e em me beijar a cara. Há muito que se faz silêncio nesta casa.
O correio chegou cedo, hoje. Só espero panfletos de publicidade e os jornais do costume. A rotina de sempre. Mas no meio de tanta papelada, deparo-me com um pequeno envelope azul escuro e com uma caligrafia um tanto ou quanto mal feita, mas familiar. O coração bate a mil à hora, parece que vai sair do peito! Será que...? Como é que...? Corro e sento-me no meio das folhas caídas e deixo que a brisa faça esvoaçar os meus caracóis. O sol continua a me beijar a cara e os pássaros preparam a sua sinfonia.

Tremo. As minhas mãos tremem ao rasgar aquele papel colorido. O coração acompanha o ritmo de toda aquela ansiedade e curiosidade. Será que é mesmo verdade? Com toda a rapidez, retiro o pequeno papel dobrado em quadro. E eis que, novamente, deslizo os olhos na caligrafia mais mal feita que alguma vez vi e sinto a vista a ficar turva. Aguento um soluço e as lágrimas correm até aos meus lábios onde morrem. És tu. És mesmo tu. Parece-me que aquela carta foi escrita diversas vezes devido à leve marcação de palavras que se conseguia ver.

"Não me quero afundar nas memórias passadas e nos arrependimentos presentes. Não me quero deixar levar pelo orgulho. Já se passou muito tempo. Estou farto do silêncio e da solidão. Volta. Não quero esquecer que existes e que foste parte de mim. Quero mergulhar, de novo, naqueles sentimentos e emoções que me fez submergir há uns meses atrás. Não te quero longe nunca mais."


E eu sorri.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

5

"Teu"

"Marquei um jantar para nós dois naquele restaurante ''de vidro'' com vista para o azul do mar, onde a música de fundo é o rebentar das ondas na areia. Dizes que aquele local transmite-te muita paz e eu quero-te feliz e tranquila. Quando lá estiveres, olha para o céu e verás a lua a sorrir para o teu lindo rosto. A iluminar-te. A contemplar-te.
Espero por ti às 21:00h

Teu."

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

8

Prelúdio de um beijo


Sempre que a porta faz o seu tradicional vai-vem, sai um cheiro a torradas e o café acabado de fazer percorre o meu nariz e parece sussurrar-me ao ouvido ''entra''. Está um frio de rachar e os cachecóis, os casacões, as botas, os gorros... não são suficientes para afastar o frio de cima de nós. E parece que daqui a nada vai dar uma chuvada, daquelas de ficar num pingo num instante. Não perco nada em entrar - penso. Quando abro a porta do café, um bafo de calor atinge-me e faço uma careta de (des)aprovação. Os meus olhos percorrem a grande sala cor de laranja fixando, por momentos, em cada uma das mesas. Está tudo cheio - digo para mim mesma. Mas ao pousar o meu olhar na última mesa existente, vejo-te. Concentrado, aliás, super concentrado no jornal. Parece que as letras te agarram e não te deixam libertar até chegares à última página, ao último ponto. Um sorriso, embora que ténue, surge-me e uma catrefada de memórias assaltam a minha cabeça. É como se o passado não existisse e tivesse que suportar tudo o que já vivi, mas baralhado como um baralho de 52 cartas. Agarro a minha bolsa, curiosamente a que tu me deste nos anos. É bonita. Apesar de pequena tem um padrão florido o qual gosto muito. Não te escapa os pormenores e compraste-me uma carteira igual, na qual tenho guardada uma fotografia tua que contemplo todos os dias antes de sair de casa. É para ter a certeza que estás bem guardado. Ironia das ironias...
E num passo determinado percorro todas as mesas focando os meus olhos cor de chocolate na tua mesa que em breve será a nossa mesa porque penso juntar-me a ti. A poucos metros de ti abrando o passo como que a dar tempo para me surgir alguma palavra simpática para dizer. Quando chego digo um tímido "olá". Largas o desporto e olhas-me admirado como se visses um fantasma. É isso que sou para ti? Um fantasma que te persegue e que devia de ficar no passado? Ainda estupefacto retribuis o cumprimento mas voltas, de imediato, o olhar para as páginas do desporto. É mais importante... eu compreendo. A medo pergunto-te se me posso sentar. A resposta? Um aceno de cabeça. Podia pousar a bolsa na outra cadeira mas quero-a no meu colo. Pode ser que repares nela... Em cima da mesa, para além do jornal, está uma chávena de chocolate quente. Quero-te imitar. Esqueço o desejo de tomar um café bem forte para ver se acordo e prefiro seguir o teu exemplo. É o que peço ao empregado e quando este se afasta, olho para ti. Continuas concentrado, a fingir que não estou à tua frente e reparo nas tuas mãos. Sempre gostei de admirá-las. Aliás, como sabes, é o que mais admiro num homem e tu não és excepção. As mãos e a voz, mas a última já eu ouvi (é melodia para os meus ouvidos. É como o canto do mar. Fico horas a escutar sem me cansar..) Mãos perfeitas. Bem desenhadas a ditar, quiçá o destino. O teu. O meu. O nosso. O vício de roer as unhas ainda dura. Não sei se constrangido passas a mão no cabelo e esse também continua igual. Brilhante e sedoso. Os teus olhos estão afundados numa completa nostalgia. Mas tirando isso, estás igual. Igual e bonito. Reparo que não mudaste. Eu é que mudei. Molho os meus lábios no meu chocolate quente, que entretanto chegou sem eu me aperceber. Os artistas dizem que quando se contempla a arte tudo o resto não existe...
Tiro a mão do meu colo e devagarinho, arrasto-a até à tua. Toco-te. Sinto-te. Suspense. Levantas os olhos do pedaço de papel e por fim fixas os meus. É aí, é aí nesse momento que consigo admirar toda a tua face. Boca fina, desejosa de pronunciar alguma palavra, alguma sílaba. Mas nada. Soltas um sorriso triste e voltas-te para a janela como se o que visses à tua frente fosse o desconhecido. ''Como estás?'' - pergunto. Fazes que não ouves, ou então nem tu próprio sabes como estás. Demoras a responder. E cada movimento teu faz bater o meu coração a mil ao segundo. Desembucha! Bebes um gole de chocolate e pousas a caneca. Fechas o jornal e lanças a resposta mais fria que já ouvi: ''Bem melhor".
Dói-me. Nem fazes ideia o quanto. Sustento as lágrimas. Não quero dar parte fraca. Não, não agora. A minha mão faz força na tua, como que a dizer ''Olha para mim, porra!''. Não sei se percebeste ou se conseguiste ler a minha mente ou se foi puro instinto. Os teus olhos igualmente castanhos fitam os meus. Levantas-te, agarras na ''boca do mundo'', pegas nas chaves de casa e sais do café. Não, por favor não. - é o que me vem à cabeça. Tenho medo. Sigo-te.
Quando abro a porta sou, tal como quando entrei mas desta vez o oposto, alvejada por um frio que me faz soltar um arrepio. Tu estás em frente, de costas para mim. Agarras no isqueiro e no cigarro e ias preparar-te para o acender. Mas não quero que fumes. Não, agora não. Quero estar contigo, sozinha. E não eu, tu e o cigarro. Chego a tempo de te tirar o cigarro da boca e o teu olhar cruza-se com o meu e talvez para me irritar tiras mais um da carteira. "Desculpa!" - digo-te. Ficas imóvel. Com o cigarro na boca e o dedo do isqueiro. Libertas um suspiro e guardas este teu vício. E... e sinto os teus braços agarrarem a minha cintura e sinto o meu peito contra o teu. Abraças-me. Sorriu. E enquanto o faço, as lágrimas correm-me cara abaixo e solto um soluço. Ficamos assim durante uns minutos. A meio da rua, ao frio. Não faz mal. Sabe-me sempre bem sentir os teus braços colados ao meu corpo e sabe-me ainda melhor a força que fazes. Parece que estás com medo. Mas medo de quê?
Quando nos largamos já estamos molhados. Está a chover a potes e nem nos demos conta. Quanto ao tempo, esquece. Voou. Lembro-me, embora por breves instantes do passado. E desejo que tudo volte a ser o que era.
Passas as tuas lindas mãos na minha cara e limpas-me as lágrimas. Encostas a tua boca à minha bochecha e dás-me um beijo demorado e suave. Soltas-me dos teus braços, voltas-te e segues o teu caminho, em silêncio.
Deixas-me ali. À chuva. Sozinha. A amar-te. Em silêncio. Sempre em silêncio. Agora, as lágrimas, aquelas que tentaste travar, correm ao sabor e ao ritmo da chuva e tu... Tu segues o teu caminho sem nunca virares-te para trás para eu puder correr e refugiar-me nos teus braços de novo.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

7
Querido Pai,

Há muito tempo que ansiava escrever esta carta. Mas não tinha coragem. Cobardia. Sei que estás distante e que eu não te vejo há uns longos quatro anos. Culpa minha? Sim. Assumo. Ainda me lembro daquela noite fria de Inverno em que te dei um beijo na testa e saí porta fora deixando para trás a dor e o pânico que estava a sentir. Apenas me olhaste de relance e retomaste a leitura do teu jornal enquanto davas um gole no teu café com leite. Sabias que me ia perder e que nesse momento só iria querer abraçar-te e chorar no teu peito. Não tentaste me avisar. Não te compreendia. Aliás, achava que tu é que não me compreendias. Ou se calhar tentaste me avisar mas eu é que não percebi. Não sabia nem sei interpretar mentes e expressões. Devia era de ter aprendido contigo. Isso é o que tu mais sabes fazer. Lias-me as expressões e os traços do rosto e descodificavas todas as mensagens. Impressionante. Nunca conheci ninguém que tivesse esse dom. E dizem que tenho uma face quase sem expressão, difícil de interpretar e mesmo assim tu sabias sempre. Sempre mesmo.

Durante o longo caminho que obriguei a minha pessoa a percorrer, conheci quem me amasse e quem me quisesse amar. Amei também. Sofri e voltei a renascer. Fiz amigos para a vida e caí sob os piores espinhos... Que te posso dizer? A vida é mesmo assim e fizeste-me falta durante todo esse percurso. Mas se te dissesse isto tudo cara a cara a tua resposta seria um encolher de ombros. Parte-me o coração sempre que o fazes. Parece-me que só vives para a tua colecção de moedas. E parece que ficas mudo sempre que tento manter uma conversa contigo. Não gosto disso. Acredito, não obstante, que gostas e orgulhas-te de mim à tua maneira.

Imagino-te todas as noites na tua cadeira de baloiço a contemplar a lua e a injuriar contra tudo e contra todos. É típico. Há quem diga que tens um ar frio e uma personalidade um tanto ou quanto difícil. E é verdade, tenho que aprovar. Mesmo assim, admiro-te porque cuidaste de mim como se fosse uma moeda tua. Cuidaste de mim com todo o carinho e amor do mundo e estou-te eternamente grata. Uii, mas comparar-me com uma moeda é demasiado forte ou demasiado banal. Nem sei. Mas sei que esta comparação está bem feita e prefiro pensar assim, porque é da maneira que me convenço que me amaste e continuas a me amar. A me examinar sempre que olhas para a minha fotografia que tens na tua mesinha de cabeceira (ainda a tens?) e a pensar em mim sempre que te contam as asneiras que os filhos dos outros fazem. Sou igual a eles, dizes tu. Certamente sou diferente. Creio que sim. É o que todos me dizem, mas tu tens que marcar a diferença, não é verdade? Não faz mal. Já lá foi o tempo em que doía cá dentro, mas eu gosto de ti assim. Também foi assim que sempre te vi e lidei contigo...

Enfim, a caneta já está ficando gasta e o papel chegando ao fim.
Suponho a tua reacção ao ler esta carta. O habitual encolher de ombros... não importa.
Tenho saudades tuas e senti-me muito melhor ao gravar neste pedaço de papel o que queria que nunca se apagasse: a tua memória. Por mais esbatida ou abstracta ou até... inconcreta?! que seja.
Bom Natal, Pai.


Amo-te.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

9

Ao som de...


Os teus dedos tocam levemente nas cordas finas. Mordes o lábio ou porque estás nervoso ou porque estás indeciso - esta ou aquela? Começas a trotear Imagine e automaticamente os dedos mexem-me suavemente produzindo sons bonitos, suaves e olhas-me nos olhos com certeza à espera de uma (des)aprovação. Mas a melodia entra-me nos ouvidos e fico à espera que continues. Apenas dou um leve sorriso e tu fazes um sorriso tímido, sinal de quem gostou da minha ''resposta''. Continuas com a dança dos acordes na magia dos dedos e aos poucos e poucos vamos tendo uma canção. Estás feliz. Soltas uma gargalhada tão espontânea que me faz rir também. É um objectivo alcançado, penso. Qual? Não sei. Só tu sabes. Mais uma vez desprendes o olhar das cordas da viola e olhas para mim. Desta vez um olhar muito mais demorado o que me faz levar a mão à cara se calhar para evitar o blush! Engraçado. Percebeste o meu embaraço mas continuas a olhar. Estás à espera do quê? Ainda atrapalhada começo a soletrar as primeiras notas e a voz sai-me de tal maneira baixinha que não tenho a certeza se ouves. Acompanhas o meu ritmo. Acenas com a cabeça e entregas-te à música de uma maneira tão profunda que chego a pensar que não estás cá. Estou feliz. No fundo ouve-se o mar e no primeiro plano estás tu com a tua fiel companheira a me fazer uma espécie de serenata. Tenho que admitir que gosto. Sabes as notas de cor e salteado e saltas do dó para o lá e do mi para o sol. Mas isso não me espanta. Porque razão haveria de espantar? Olho nos teus olhos ternos de amêndoa e tu nos meus olhos cor de chocolate. Ficamos como dois seres sem vida própria, dependentes um do outro.


E continuamos.


La... la... la... la...
(desconheço o autor da foto)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

11

Que importa?


Entro naquele que já é o meu refúgio. Escuro e com uma pilha de livros há espera do meu toque para folhear todas aquelas páginas e me entregar a cada palavra, a cada linha, a cada sinal de pontuação. Sento-me de perna cruzada no cadeirão mais próximo onde uma réstia da lua apenas consegue iluminar metade da minha face. Puxo um cigarro e fico assim, durante alguns minutos, a meditar.
As paredes do abismo, brancas como o cal, surgem na minha cabeça. Sufocam-me. A cada dia que passa, sinto-as mais próximas da mesinha que está no centro da suposta sala. E sinto que se der um passo à frente... catrapum, era uma vez. Se der um passo atrás fico entre a espada e a parede. Imagino até as gotas de suor que me cairão face abaixo. E mesmo no interior dos sonhos só consigo ouvir as paredes do abismo. Gritam! Bradam!
Mas não, não. Semicerro os olhos e faço mais uma bola de fumo. Porquê? Silêncio... silêncio. Estarão as palavras gastas? Não me parece. Assaltam-me o pensamento, até.
A lua está cheia. Hoje de manhã não te ouvi na rua mas nem isso significou algo para mim. Prefiro ficar sozinha. Talvez sozinha e perdida me recorde de ti com o devido sentimento. Sim, de ti.
Tenho que te dizer que já não voo por cima das nuvens nem à volta das estrelas. Nem as palmas das minhas mãos se conheço! Mas sabes, nem isso me afecta. O meu único vício é o cigarro. Companheiro fiel de todas as horas e segundos. Veneno, eu sei. Que importa?
Lembro-me do corredor do hospital. Que tédio! Lembro-me das palavras que murmuraste antes de te olhar nos olhos. Lembro-me de cada gesto teu, de cada traço do teu rosto, da expressividade do teu olhar. Podia até ler a tua mente. Tenho conhecimentos suficientes para isso, mas... para quê? Isso não traria de volta a felicidade nem a pureza tua alma. Sim, já te tinhas perdido naquela altura. Olhavas para mim e era como se me visses pela primeira vez. Não me conhecias. Não sabias o meu nome. Não sabias que eras importante para mim. Não sabias nada. Não imaginas a dor que isso me provocou. Foi como se me tivessem dado um tiro que acertou em cheio no coração. E mesmo assim, mesmo assim agarraste a minha mão e tiveste medo que partisse.
Mas eu não parto, meu amor. Apesar de o mundo ter desabado em cima de mim no momento em que me perguntaste quem eu era... Como é que...? Não sei. Respondi-te apenas que era o teu anjo. Fiquei na dúvida se me tinhas percebido ou se me acharias louca. Mas não importa.
Aliás, já nada importa.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

4

Espelho meu, espelho meu...


Tal como um espelho que está numa loja de antiguidades e que está há séculos para ser vendido, era assim que ela se sentia. Partida aos bocadinhos por dentro e intacta por fora. Seus olhos reflectiam tristeza, solidão e suas mãos ásperas eram a testemunha dos seus dias mal passados. Sem tratamento, sem passar um pano sobre o assunto... Inútil, desacautelada, suja, replecta de impressões digitais, e era a casa preferida das aranhas. Apenas reflecte o que lhe rodeia, apenas deixou os seus objectivos de lado.

O seu sorriso está desfocado e não brilha mais. A preto e branco ou a sépia? Uma mistura de ambas as combinações. Cores? Só mesmo essas. Preto, Castanho e Branco. Triste. Desamparada. Como uma vagabunda sem destino nas ruas de Paris, como uma mãe que quer dar de comer aos filhos e não o pode fazer. Para quê viver? Para quê sonhar, acordar e amar?

Horas vagas no vazio e iluminada para lua cheia. Ao relento, onde os únicos ruídos provêm das ondas do mar a desmaiar na areia. Cabelo ao vento e lágrimas a caírem pela sua face de boneca de porcelana.

No café, no escritório, ali, em casa... Igual.
Mas...
Em frente ao espelho da sua alma, pegou no batôn vermelho e escreveu: Ficarei assim para sempre?




(Obrigada pela sugestão Sandra. Ah e isto é pura ficção!)
(desconheço o autor da foto)

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

4

Dançar à chuva

Não preciso de pedir para dançar, não preciso de sorrir para dançar e não preciso de sonhar para dançar. Danço mesmo à chuva. Não me importo de ficar molhada, não me importo de ficar doente. O que quero é ser feliz e não há nada mais feliz do que sentir a chuva sobre o nosso corpo, sentir a sua queda, ouvir a sua voz. A sua mensagem.
Rodopiar de propósito para a branca e longa saia seguir os meus movimentos e provocar um efeito diferente e bonito. Danço mesmo descalça, para sentir a água debaixo dos meus próprios pés. Quanto aos meus caracóis... dançam com a chuva, mais rebeldes que nunca.
A vida é assim mesmo.
É sorrir, é sonhar, é dançar.
E eu danço mesmo à chuva.
Mesmo à chuva...

sábado, 25 de agosto de 2007

3

Basta!













Uma valsa inacabada. Ainda por cima a última! Como é que pudeste te enganar logo no momento em que eu estava a acertar?! Foi um trabalho duro. Ensaios e mais ensaios e tu, sim tu, tinhas que falhar. Tinhas que dar a volta mal dada e cometer o erro de trocares os passos. Sabes por que é que isto aconteceu? Porque não seguiste o compasso como eu te disse para fazeres. Quiseste fazer tudo à tua maneira mas deste-te mal. E depois? Depois caíste numa angústia tremenda que até fazia dó. Mas eu não quis repetir porque acertei na perfeição. Sentia-me uma mulher realizada. Não queria acabar com essa sensação. E sabes que mais? Para ter graça uma vez só... BASTA!

domingo, 5 de agosto de 2007

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Ao Luar...



Aqui me encontro. Aqui onde o tudo e o nada me envolvem, onde não conheço ninguém e onde recordo o meu passado. Aqui ao relento onde partilho todas as emoções com a lua e com as estrelas. Onde caminho de mãos dadas com a solidão e onde o meu destino muda a toda a hora. Há quem me compare com uma marioneta que se movimenta ao sabor do acaso. Marioneta sem membros mas com alma e coração que é o que importa. Que é onde guardo os sentimentos, as memórias e onde me consolo nas madrugadas frias de Inverno, onde me refugio de todo o mal e deixo apenas entrar a felicidade.
Mas a felicidade não se vê nem se cheira. Só se sente. No entanto, vagabunda como sou, sinto-a quando o meu terno olhar se cruza com os que por mim passam num passo tão apressado que parece que a calçada lhes foge dos pés. Sinto-a quando os sonhos e eu somos um só, como a lua e o sol durante um eclipse. Como o mar e a areia na praia deserta. Como os casais de apaixonados quando se abraçam.
Apesar de solitária, a minha força de viver não diminui. Comparada com outros, eu enfrento todos os dias a fome, a solidão, o vazio enquanto há quem fuja disto a sete pés.
Eu sou uma vencedora e estou habituada a vencer. E assim será até ao fim dos meus dias. Porque senão perco a luz do olhar.

(Agradeço à Joana a opinião e a força que me deu para publicar este texto. Um beijo para ela)

domingo, 22 de julho de 2007

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Quem me dera que tivesse sido eu. Peço desculpa !


Estava eu a passear à berma da estrada para tentar encontrar inspiração para os meus textos como colunista no jornal da cidade. Sentei-me num banco de jardim decidida a que as palavras voassem até mim como um avião voa para a terra do destino. Fixei o meu olhar na esplanada Ambrósia, numa mesa redonda em que estava um jovem a beber uma cola. Encontrava-se aparentemente deprimido, ferido, olhando para o vazio como se o que se passasse à volta dele, as pessoas que andavam num passo apressado, pertencessem a outro mundo, a outra realidade. Levantei-me decidida a me sentar na mesa do jovem, a pedir a mesma bebida que o jovem e a olhar nos olhos do jovem e fazer soltar as palavras enforcadas na sua garganta. Quando me sentei, apenas me lançou um olhar rápido, frio e triste. Não pronunciou nenhuma palavra nem nenhum som. Não esperei mais tempo. Comecei a desbobinar perguntando o que lhe fazia ficar em tão baixa auto-estima.
- Há dois dias atrás a vida corria-me mal. Na escola tudo mal, comigo mesmo tudo péssimo, com os amigos também. E para não bastar, decidi baldar-me ao último tempo da tarde. Fui para casa, tomei um banho e vesti-me como nunca me vesti. Peguei no carro do cota e fui ter com uns conhecidos a um bar que não conhecia bem, mas que tinha um ambiente agradável, no meu ponto de vista. Ficámos lá a abanar o capacete e a beber uns copos até bem tarde. Quando chegou a hora de bazarmos, eu é que fui encomendado para levá-los a casa, visto que não tinham carro. Em toda aquela euforia dentro do carro do cota, com música aos altos berros, danças dentro do carro, conversas paralelas e pouco mais, nem me tinha dado conta na velocidade em que ia, nem para onde ia. Ia na faixa contrária, divertidíssimo com tudo o que se passava na caixa de quatro rodas, chocando contra outro carro.
Acordei horas depois no hospital, com canos no nariz e com a cara cheia de sangue pisado, nódoas negras e pensos rápidos. Perguntei à enfermeira pelos meus amigos. Ela, sem desviar os olhos do relatório médico, disse-me muito secamente : '' as duas raparigas tiveram morte imediata, e o outro rapaz está em coma. Você está prestes a ter alta, não se preocupe '' . '' Não se preocupe?!'' Como é que não podia preocupar-me, se eu, sim eu, MATEI duas pessoas e pus uma em estado crítico? Experimentei perguntar pelo senhor outro carro. A mulher respondeu-me da mesma maneira : '' O senhor já saíu do hospital, mas o carro não prestou para mais nada ''. As lágrimas vieram-me aos olhos... não sei se de pena, de raiva ou de tristeza. Queria sair daquela cama de hospital o mais rápido possível.
Ontem, quando saí, passei na rua onde se tinha dado o acidente e vi que muita gente parava e deixava ramos de flores roxas e brancas e também velas. Percebi de imediato que aquela notícia não tinha passado ao lado da sociedade e muito menos era desconhecida. Então, peguei em todas as flores que lá encontrei e escrevi no chão '' Quem me dera que tivesse sido eu. Peço desculpa ! '' e caminhei sem sequer ter coragem de olhar para trás, com as lágrimas a me deslizarem pela cara. (respondeu ele com os olhos cheios de lágrimas e a me pedir, indirectamente, ajuda)


Naquele momento, achei que já tinha inspiração suficiente para escrever a minha crónica.