quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Ídolos...

No dia 11 de Janeiro de 2007 o mundo caiu-me em cima. Após as fabulosas férias de Natal com os tios e primos do estrangeiro e muitos passeios pela ilha, o novo ano tinha começado, mas tinha começado mal... Nesse mesmo dia, não te conseguias levantar da cama e respirar doía. Não soube disso. Fui para as aulas, descansada, achando que estava tudo bem. Mais tarde, por volta das três da tarde, a mãe mandou-me uma mensagem a dizer para ir ter ao hospital depois das aulas, pois a ambulância tinha ido a casa buscar-te. Fiquei sem reacção possível... Liguei a perguntar por pormenores e fiquei ainda mais pálida, depois de ela me dizer que estavas em coma. Tentei manter a calma, e consegui. Na altura, tinha comigo uma amiga e colega de turma e contei-lhe o sucedido. Não contei a mais ninguém. Só saía das aulas às seis e um quarto e não faltei às aulas. Sabia que tinha que estar entretida e pensar noutras coisas, apesar de a minha mente viajar única e exclusivamente para aquele edifício horrível que tresanda a remédios. Viajar única e exclusivamente para ti e para todos os momentos que tínhamos passado. Não verti uma única lágrima depois de saber da notícia. Mais uma vez, a capacidade que tenho de me manter calma nos piores momentos fez com que eu até gerisse a situação melhor do que eu e a minha amiga achávamos. Mas lá no fundo, mesmo no fundo, estava em pânico e tinha medo de qualquer telefonema, de qualquer coisa que acontecesse, até a mais banal como os tios me ligarem para saberem como eu estava...

Tocou para a saída. Peguei nas minhas coisas e fui para o hospital. Lembro-me de ter ido a pé, pois queria estar a sós uns momentos, queria reflectir e digerir muito bem o que estava a acontecer. Ninguém sabia como estava. Ninguém sabia o que se tinha passado. Preferi assim. Quis deixar as coisas correrem naturalmente e não quis as atenções viradas para mim mesma. Há quem chame egoísmo, eu apenas digo que é para não preocupar ninguém e para eu própria aprender a lidar com a situação. Cheguei ao hospital algum tempo depois mas não consegui entrar. Não estavas nas urgências, como é óbvio, mas mesmo assim não me deixaram te ver. A mãe perguntava aos médicos como é que estavas e nenhum dava respostas. As análises ainda não estavam prontas e contava-se os segundos e os minutos e as horas a passarem, tal era o stress. Desliguei o telemóvel. Lembro-me de o fazer. No hospital, senti-me fraca. Quis muito que tudo passasse depressa, mas nada. Nenhuma reacção tua, nenhuma resposta dos médicos. Não passei lá a noite. Voltei para casa, porém voltei com o tio. A mãe, ficou no hospital com a tia. Nem aos avós avisámos, pois o avô tem problemas de coração e não se pode preocupar e a avó... ia reagir muito mal. Preferimos esperar pelo dia seguinte para dar a notícia.
A noite passou-se e tu em coma continuaste...

Regressei às aulas, sexta-feira dia 12, e contei aos meus amigos tudo o que tinha acontecido na véspera. Mas as lágrimas pareciam que tinham secado... nem uma! Houve quem me chamasse de insensível... não faziam mesmo ideia como ardia por dentro! No entanto, esse foi o pior dia. Foi nesse dia que os avós souberam o que se tinha passado e não reagiram nada bem à notícia, foi nesse dia que o resultado das análises tinha saído e indicava que tinhas tido um ataque de diabetes (estavam em 600 e tal...) e que... ainda estavas em coma e não havia sinais de melhoras em lado nenhum...

Mais quatro longos e difíceis dias passaram. Dias monótonos, e sem grande esperança. E finalmente, acordaste do coma! Os diabetes ainda estavam altos, mas muito mais fáceis de controlar. Foi aí, nesse mesmo dia, 17 de Janeiro, que eu chorei. É estranho ter sido tanto tempo depois, mas foi nesse mesmo dia que me apercebi que o pior tinha passado, que agora tudo o que acontecesse ia fazer com que melhorasses. E assim foi. Passaste ainda, uns dias nos cuidados intensivos só para uma questão de controlo, e depois para os quartos. Só aí, cerca de uma semana e meia depois é que te vi. Branco, magro. Alimentado a soro e nada mais. Na hora das visitas, permanecia no hospital imenso tempo, mesmo quando estavas a dormir. Muitas vezes estudava lá, só para estar contigo.
Nesse mesmo mês, a filha do D., com 21 anos, também teve que ser operada de urgência ao coração, mas a operação correu mal e ficou em coma durante dois meses. Foi outro mundo a nos cair na cabeça. Simultaneamente visitávamos a M., e dávamos força à família. Tentávamos consolar a mãe, o pai e a irmã. Era um completo um por todos e todos por um... Felizmente, ela agora está bem, e apesar de todas as lesões mentais que sofreu (e não só), está a conseguir normalizar a sua vida e continua com a mesma força de sempre e o mesmo sorriso...

Quanto a ti, só saíste do hospital no dia 5 de Fevereiro e duas vezes por semana ias ao médico para ver como estavam os diabetes. Tiveste que injectar insulina durante muito tempo mas aos poucos e poucos, tal deixou de ser preciso porque a alimentação também teve que ser controlada. Tudo ia, aos poucos, normalizando... O pesadelo tinha acabado. Estava tudo a regressar ao normal. Enquanto estiveste no hospital perdeste mais de 20 quilos, mas como foram perdidos de uma forma repentina, foi preciso recuperar alguns de forma equilibrada. Começaste a ter consultas de nutricionista e a fazer exercício físico regularmente. Os diabetes, estabilizaram, e até hoje, 16 de Outubro de 2008 tem sido mantido debaixo de olho. Por vezes, tens uma recaída, no entanto consegues recuperar bem e seguir com a tua vida! E eu estou feliz por isso! Muito mesmo! Pois eu nunca, mas nunca, pensei que te ias safar disto. Nunca mesmo!

Tudo isto que estou a partilhar convosco, foi recontado, ontem, ao jantar, aqui em casa, em primeira pessoa do plural, e digo desta forma porque os meus pais recontaram tudo isto e porque... houve uma enorme surpresa para mim... O D. veio cá com a mulher e claro com a M., que está linda, que está numa pérola! e cheia de vida! Ainda me emocionei durante a narrativa. As lágrimas foram de tristeza ao relembrar tudo isto, que me marcou imenso e que mudaram a minha maneira de lidar com a vida, mas foram muito mais de alegria por ver que tu, Pai, conseguiste dar a volta por cima e que estás bem, estás cheio de energia, cheio de vida e que a M., está entre nós e que de dia para dia, ganha mais um trunfo! Ela teve que aprender a ler outra vez, a escrever, a falar, a andar... tudo! Teve que aprender a fazer tudo de novo! E eu estou muito orgulhosa por ver que força de vontade é o que não falta, e que já consegue dar continuidade a uma conversa e liderar muito bem os seus movimentos!

São depois de momentos como estes que eu digo que os meus ídolos não são os cantores, nem actores, nem celebridades... são sim pessoas como vocês que conseguiram sair de uma situação muito complicada, que deram outro sentido à forma como lidam com a vida e que ensinaram, a mim, também a vê-la com outros olhos!
E agora, não é preciso dizer mais nada, mas sim ouvir...

7 comentários:

Anónimo disse...

Beijinho Martita =) tenho a certeza que tudo vai correr melhor, sem sustos arrepiantes.

(eu faço anos dia 5 de Fevereiro =) parece-me que é um bom dia então... pelo menos traz-te boas recordações)

m disse...

Eu sei, eu sei :P É uma óptima data, tenho que admitir, heheheh

Outro beijinho para ti :)

João Roque disse...

Martinha
pelas razões que sabes li com atenção redobrada eswte teu texto e deste-me apesar da tua juventude, uma enorme lição e que eu estava muito a precisar; um enorme obrigado por isso.
Eu perdi o meu Pai, "num instante", estava bem, de repente uma úlcera gástrica, uma semana no hospital e...o fim.
Já foi há muitos anos, vai fazer 23, mas recordo todos esses momentos, como um filme.
Agora, vou controlar as minhas emoções, com a tua lição.
E, sem ironia, sabes que desde há uma semana sou considerado diabético? Algo perfeitamente controlável, desde que tenha juízo.
Beijinhos muito carinhosos para ti.

m disse...

Pinguim, são acontecimentos como este que nos fazem abrir os olhos e a mente perante a vida! É o único lado positivo...

E tem juízo!! Nada de exageros :P

Outros para ti*

Élio - Filomena disse...

Uns verdadeiros HERÓIS!

Beijos..

P.s: Força Pinguim!!!
"A força não provém da capacidade física e sim de uma vontade indomável."

m disse...

Grandes Heróis, Élio, grandes heróis! :)

Beijinhos

Sandra disse...

vieram-me as lágrimas aos olhos.
és o meu orgulho, sabes disso..