Querido Pai,
Há muito tempo que ansiava escrever esta carta. Mas não tinha coragem. Cobardia. Sei que estás distante e que eu não te vejo há uns longos quatro anos. Culpa minha? Sim. Assumo. Ainda me lembro daquela noite fria de Inverno em que te dei um beijo na testa e saí porta fora deixando para trás a dor e o pânico que estava a sentir. Apenas me olhaste de relance e retomaste a leitura do teu jornal enquanto davas um gole no teu café com leite. Sabias que me ia perder e que nesse momento só iria querer abraçar-te e chorar no teu peito. Não tentaste me avisar. Não te compreendia. Aliás, achava que tu é que não me compreendias. Ou se calhar tentaste me avisar mas eu é que não percebi. Não sabia nem sei interpretar mentes e expressões. Devia era de ter aprendido contigo. Isso é o que tu mais sabes fazer. Lias-me as expressões e os traços do rosto e descodificavas todas as mensagens. Impressionante. Nunca conheci ninguém que tivesse esse dom. E dizem que tenho uma face quase sem expressão, difícil de interpretar e mesmo assim tu sabias sempre. Sempre mesmo.
Durante o longo caminho que obriguei a minha pessoa a percorrer, conheci quem me amasse e quem me quisesse amar. Amei também. Sofri e voltei a renascer. Fiz amigos para a vida e caí sob os piores espinhos... Que te posso dizer? A vida é mesmo assim e fizeste-me falta durante todo esse percurso. Mas se te dissesse isto tudo cara a cara a tua resposta seria um encolher de ombros. Parte-me o coração sempre que o fazes. Parece-me que só vives para a tua colecção de moedas. E parece que ficas mudo sempre que tento manter uma conversa contigo. Não gosto disso. Acredito, não obstante, que gostas e orgulhas-te de mim à tua maneira.
Imagino-te todas as noites na tua cadeira de baloiço a contemplar a lua e a injuriar contra tudo e contra todos. É típico. Há quem diga que tens um ar frio e uma personalidade um tanto ou quanto difícil. E é verdade, tenho que aprovar. Mesmo assim, admiro-te porque cuidaste de mim como se fosse uma moeda tua. Cuidaste de mim com todo o carinho e amor do mundo e estou-te eternamente grata. Uii, mas comparar-me com uma moeda é demasiado forte ou demasiado banal. Nem sei. Mas sei que esta comparação está bem feita e prefiro pensar assim, porque é da maneira que me convenço que me amaste e continuas a me amar. A me examinar sempre que olhas para a minha fotografia que tens na tua mesinha de cabeceira (ainda a tens?) e a pensar em mim sempre que te contam as asneiras que os filhos dos outros fazem. Sou igual a eles, dizes tu. Certamente sou diferente. Creio que sim. É o que todos me dizem, mas tu tens que marcar a diferença, não é verdade? Não faz mal. Já lá foi o tempo em que doía cá dentro, mas eu gosto de ti assim. Também foi assim que sempre te vi e lidei contigo...
Enfim, a caneta já está ficando gasta e o papel chegando ao fim.
Suponho a tua reacção ao ler esta carta. O habitual encolher de ombros... não importa.
Tenho saudades tuas e senti-me muito melhor ao gravar neste pedaço de papel o que queria que nunca se apagasse: a tua memória. Por mais esbatida ou abstracta ou até... inconcreta?! que seja.
Bom Natal, Pai.
Amo-te.
Há muito tempo que ansiava escrever esta carta. Mas não tinha coragem. Cobardia. Sei que estás distante e que eu não te vejo há uns longos quatro anos. Culpa minha? Sim. Assumo. Ainda me lembro daquela noite fria de Inverno em que te dei um beijo na testa e saí porta fora deixando para trás a dor e o pânico que estava a sentir. Apenas me olhaste de relance e retomaste a leitura do teu jornal enquanto davas um gole no teu café com leite. Sabias que me ia perder e que nesse momento só iria querer abraçar-te e chorar no teu peito. Não tentaste me avisar. Não te compreendia. Aliás, achava que tu é que não me compreendias. Ou se calhar tentaste me avisar mas eu é que não percebi. Não sabia nem sei interpretar mentes e expressões. Devia era de ter aprendido contigo. Isso é o que tu mais sabes fazer. Lias-me as expressões e os traços do rosto e descodificavas todas as mensagens. Impressionante. Nunca conheci ninguém que tivesse esse dom. E dizem que tenho uma face quase sem expressão, difícil de interpretar e mesmo assim tu sabias sempre. Sempre mesmo.
Durante o longo caminho que obriguei a minha pessoa a percorrer, conheci quem me amasse e quem me quisesse amar. Amei também. Sofri e voltei a renascer. Fiz amigos para a vida e caí sob os piores espinhos... Que te posso dizer? A vida é mesmo assim e fizeste-me falta durante todo esse percurso. Mas se te dissesse isto tudo cara a cara a tua resposta seria um encolher de ombros. Parte-me o coração sempre que o fazes. Parece-me que só vives para a tua colecção de moedas. E parece que ficas mudo sempre que tento manter uma conversa contigo. Não gosto disso. Acredito, não obstante, que gostas e orgulhas-te de mim à tua maneira.
Imagino-te todas as noites na tua cadeira de baloiço a contemplar a lua e a injuriar contra tudo e contra todos. É típico. Há quem diga que tens um ar frio e uma personalidade um tanto ou quanto difícil. E é verdade, tenho que aprovar. Mesmo assim, admiro-te porque cuidaste de mim como se fosse uma moeda tua. Cuidaste de mim com todo o carinho e amor do mundo e estou-te eternamente grata. Uii, mas comparar-me com uma moeda é demasiado forte ou demasiado banal. Nem sei. Mas sei que esta comparação está bem feita e prefiro pensar assim, porque é da maneira que me convenço que me amaste e continuas a me amar. A me examinar sempre que olhas para a minha fotografia que tens na tua mesinha de cabeceira (ainda a tens?) e a pensar em mim sempre que te contam as asneiras que os filhos dos outros fazem. Sou igual a eles, dizes tu. Certamente sou diferente. Creio que sim. É o que todos me dizem, mas tu tens que marcar a diferença, não é verdade? Não faz mal. Já lá foi o tempo em que doía cá dentro, mas eu gosto de ti assim. Também foi assim que sempre te vi e lidei contigo...
Enfim, a caneta já está ficando gasta e o papel chegando ao fim.
Suponho a tua reacção ao ler esta carta. O habitual encolher de ombros... não importa.
Tenho saudades tuas e senti-me muito melhor ao gravar neste pedaço de papel o que queria que nunca se apagasse: a tua memória. Por mais esbatida ou abstracta ou até... inconcreta?! que seja.
Bom Natal, Pai.
Amo-te.

7 comentários:
:'0
Palavras para quê???!
Beijão*
uma autentixa bela carta, que deixa qualquer um a pensar :)
Sinto-te e isso deleita-me, apesar das tuas palavras serem melancólicas.
Um Feliz e santo natal para ti e que os teus sonhos se realizem (espero ouvir a tua voz numa rádio por aí!)
lunabeijinho
amo-te...
que profundo
Perfeito. Até chorei :')
Beijos*
Uau :O
Parabens
*
Enviar um comentário